quinta-feira, 11 de junho de 2009

Meaning in flames - SUBMISSION HOLD

"Depois da tour do verão de 2005, e 12 anos de turnês criando músicas e idéias, nós decidimos parar pelo ano. Nove meses depois daquele ano, era óbvio para todxs nós que a pausa era permanente. Então, agradecimentos bem atrasados para aquelxs que nos apoiaram e inspiraram pelos anos. Felizmente, nós fizemos algum tipo de contribuição positiva. Mesmo que não estejamos mais ativxs como banda, permanecemos amigxs e continuamos a aplicar o que vocês nos ensinaram em outros projetos. Nós tivemos ótimos tempos. Quem sabe não é a sua vez?"

Meaning in flames (Significado nas chamas)


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(Do LP "Sackcloth and Ashes - The Ostrich Dies on Monday")

Você tem uma história alternativa em mente?
Pode distinguir a realidade da imaginação?
Recriar o passado
para caber uma visão alternativa de futuro
que eu tenho em mente?

Mude uma peça do quebra-cabeças
E você terá pessoas sonhando em fazer coisas
que elxs não sonhariam fazer.
Estou sonhando este sonho
Ou este sonho está me sonhando?

O alarme desligou - um pouco atrasado
e a transmissão começa
Nos diz:
"O mundo está em chamas" (5x)
"Abra seus olhos! Abra seus olhos!"

E eu penso e recordo que havia um tempo
Onde eu também acreditava nisso
E agora me dizem que eles arrancaram seus lábios
Eu não vou suportar isso
Eu não vou suportar isso

E isso é um aprendizado
E isso é uma lembrança falha
Eu não posso me lembrar do passado então eu o repito
Eu não posso me lembrar do passado então eu o repito

Me escondi debaixo das cobertas
com muita de-liberação
Mas a transmissão continuou atravessando
Com dez segundos de atraso

[O mundo está em chamas
Por um pequeno segundo todxs entendemos]

Todxs estamos queimando, tudo está queimando, tudo está morrendo. (3x)

E nós nos dizemos de novo e de novo
Encontre significado nas chamas
Eu posso sobreviver a este dia
Se conseguir ver alguma coisa bela

O mundo está em chamas
E na luz alaranjada
Eu danço em um túmulo
Brindo à lápide
E ajoelhadx
Eu escrevo meu nome.

Todxs estamos queimando, tudo está queimando, tudo está morrendo.
"O mundo está em chamas" (5x)


"Sonho com outro tempo - um tempo de ficcção científica, especulativo. Onde qualquer coisa é possível. Um tempo utópico, distópico, mas não tão míope. Sonho com um tempo - de um lugar - onde a parte tão obviamente absurda de nossas vidas não existe. Onde somos o sonho e o sonho é a realidade. De um lugar onde as pessoas não vivem em jaulas - nem físicas, nem imaginárias. Onde existem verdadeiras escolhas em nossas vidas e mesmo sem solução para todos os problemas, não estamos todxs perdidxs.
Sonho...
Foi em um desses dias nos quais não tens nem vontade de sair da cama. Paralizadx pela desesperança e desespero, uma sensação dominadora que se parece em tudo como uma verdade não reconhecida. Eu reconheço minha própria mortalidade e percebo que não sou nada. Mas algumas vezes eu posso enxergar além da minha visão limitada e ver um futuro (e um passado) que desviam e superam nossos tempos de tanta desilusão. Há esperança - ainda que seja pequena e algumas vezes eu a perca, consigo encontrá-la de novo. Tudo está em constante mudança. Nada é permanente. A mudança está sempre no horizonte.
Eu acordo, saio na rua e vejo uma rachadura no concreto".

[Submission Hold]

"Este mundo está nos envenenado, nos limitando em atividades inúteis e nocivas, nos impondo ter a necessidade de dinheiro e nos privando de relações apaixonantes. Estamos envelhecendo entre homens e mulheres sem sonhos, estrangeirxs em um presente que não deixa espaço para nossos impulsos mais generosos. Não somos partidárixs de nenhuma abnegação. É que simplesmente o que esta sociedade sabe oferecer como o melhor (a carreira, a fama, a vitória imprevista, o "amor"), não nos interessa. Mandar nos repugna tanto quanto a obediência. Somos exploradxs como xs outrxs e queremos terminar o quanto antes com a exploração. Para nós, a revolta não precisa de outras justificativas.
Nossa vida está nos escapando e todo discurso de classe que não parta disso não é outra coisa senão uma mera mentira. Não queremos dirigir nem apoiar movimentos sociais, mas sim participar nos que existem na medida em que reconheçamos neles exigências comuns. Desde uma perspectiva desmedida de libertação, não existem formas de lutas superiores. A revolta necessita de tudo, jornais e livros, armas e explosivos, reflexões e blasfêmias, venenos, punhais e incêndios. O único problema interessante é como mesclá-los."

Ai ferri corti "Romper con esta realidad, sus defensores y sus falsos críticos"
Anónimo. Páginas 24 e 25. Editorial Muturreko Buru
taziok (anti-politics.net)


"Nós não estamos com nem um pouco de medo das ruínas...
Nós carregamos um mundo novo aqui, em nossos corações..."
- Buenaventura Durruti



A MANADA SE DESPEDE DO CORPO DO FELINO QUE PARTIU, MAS MOSTRA AS GARRAS PARA DEFENDER SUA MEMÓRIA

A sexta-feira 22 de maio ficou suspensa na memória

O dia parou quando nos noticiários aparece a foto de nosso irmão Mauri. Acabou sendo ele quem morreu como resultado da detonação inesperada do artefato explosivo que portava. Atacaria a escola de polícia, carcereiros que fazem da tortura um trabalho.

Era cerca de três da tarde quando em nosso lar chegam os carros da imprensa, desejosos de obter alguma imagem, quem sabe uma lágrima de dor ou a condenação pública. Nesse mesmo instante são invadidas mais duas casas do bairro, "Cueto con Andes" e a okupação "La idea". Nessa última o aparato é dantesco. Um grupo de assalto, franco-atiradores, helicópteros, todos os brinquedos novos para o show em pleno centro de Santiago.

A casa é destruída e xs companheirxs são detidxs, transferidxs para uma unidade da polícia de investigações. São filmadxs, desnudadxs e ameaçadxs. Se não cooperarem com a investigação, xs farão ver as fotografias do estado em que ficou o corpo de nosso irmão. Entendemos isso apenas como uma técnica a mais da morbidade do poder, não nos surpreendemos nem lamentamos, só reafirma nosso mais profundo desprezo por eles.

A polícia, em sua ânsia de obter resultados, ingressa na casa um recipiente com pólvora. Continua o circo. Não queremos apelar à montagem como defesa política, mas o inegável, o real e alheio a toda discussão é que tecnicamente a pólvora foi introduzida pela polícia. É tal o nervosismo por parte dos guardiões do poder, que apesar desse fato (que juridicamente leva à detenção automática) xs companheirxs são libertadxs e com o passar das horas, três delxs (argentinxs) perdem permissão diária, sua permanência no país depende exclusivamente do ânimo dos fiscais.

Paralelo a isso, no meio de toda tensão, a polícia cerca nossa rua com fitas de segurança, isolando a área e se posicionando nos arredores. A invasão de nosso lar era iminente.

Com o peito estufado e o rosto coberto, nos colocamos em guarda...

Decididxs a fazer frente à repressão, nos amotinamos, supondo que talvez o que podíamos fazer era simplesmente um gesto. Nossos anos de discurso fez sentido sem hesitação, os espaços se defendem, não se cedem, não se abandonam, assumindo todas as consequencias que nosso ato poderia provocar.

Aqui queremos parar por um momento, é importante refletir sobre o que fazer ou não diante da repressão, sobre como fazer. A vida corre vertiginosamente, com uma urgência de tomar posições, é fácil às vezes sucumbir ao abismo e não medir com suficiente peso os obstáculos que enfrentamos diariamente. A convicção com a qual enfrentamos esse dia, isso tínhamos claro, não impediria nem por um momento o ingresso das forças repressivas, mas o que estava realmente em jogo? Nada mais que nossa moralidade, nada mais que o peso real de nossas posições diante do mundo, a maneira como enfrentaríamos esse momento, também determinaria a resposta dxs companheirxs que estavam fora.

A opção mais sensata, à partir da racionalidade imposta, que não tem nem princípios nem moral a mais que a comodidade e o medo, era abandonar a casa, colocar em resguardo nossa integridade, nossa "liberdade", nossas vidas, mas não o fizemos. Se Mauri tivesse tomado esse caminho, se tivesse se deixado seduzir pela vida cômoda do capital, hoje estaria vivo, divertindo-se, em êxtase com as efêmeras felicidades que são oferecidas. Mas está morto. Morreu em guerra com o existente, optou pelo caminho mais difícil, fez de cada parte de sua vida um combate.

É preciso entender que nenhuma ação em si mesma gera a queda do capital, nem defender-se em um teto, nem parar uma biblioteca, nem portar uma carga na mochila, isso não está em questão. É o sentido que motiva as ações que gera uma ruptura com a sociedade sustentada pela exploração e pelo poder. Não vivemos esperando um futuro ideal onde podemos realizar nossos sonhos e desejos. Aqui e agora, em cada pequeno ou espetacular ato de revolta recuperamos nossas vidas. O irônico é que a recuperamos mesmo quando nossa vida se esvai por ele.

Enquanto toda essa análise se condensava em nossas cabeças, que a essa hora ardiam, companheirxs solidárixs, nos apoiavam desde fora. Nos enviavam força e enfrentavam a polícia e a imprensa, registrando-se xs primeirxs detidxs. Em apoio aos porta-vozes do poder, a polícia intervém, lançam gases e água tóxica. Entre xs companheirxs os afrontamos, no entanto, conseguem dispersar xs solidárixs permanecendo só a polícia no setor.

Cai a noite, os guardiões do capital e seus porta-vozes se afastam...

Xs companheirxs se aproximam da casa, tomando a rua. Pela primeira vez no dia podemos estar todxs juntxs, podemos conversar e sentir as mãos de nossxs cúmplices. Emocionadxs vemos do telhado a grande quantidade de irmãs/ãos que nos faziam companhia, sentimos sua presença com muito afeto. É aí que recentemente algumas/uns ganham consciência da partida de nosso irmão Mauri, algumas/uns choram, se abraçam e gritam para nós algo que todxs pudemos sentir sem duvidar: "NÃO ESTÃO SOZINHXS" e não, não nos sentíamos sozinhxs.

Avança a noite, o frio toca nossos ossos, a comida é coletivizada, as primeiras fogueiras são acesas e escutamos a música que Mauri mais gostava. Nos trazem alimentos. A essa altura as paredes do bairro são pichadas com frases de apoio a nosso irmão.

De repente nos avisam da chegada de comitivas policiais. Nossxs irmãs/ãos que estão fora, decidem não esperar, iniciam as barricadas. Juram não abandonar-nos, cumprem sua promessa à risca. Gritamos todxs juntxs por Mauri, fazemos da profunda dor que nos destroça, uma labareda contra a autoridade. O fogo se expande pelo bairro.

Nossos olhos não alcançam para dimensionar o que ocorre lá fora, só escutamos os gritos, o ruído do enfrentamento e o cheiro da fumaça do confronto.

A polícia lança seu gás e água, ainda assim decide não atacar diretamente a casa, nem a nós que rasgávamos nossa voz gritando, com a pele gelada, com os olhos inchados. A brisa noturna mostra a quantidade de horas que ficamos em tensão, o corpo pesa como uma mochila gigante.

Com o passar dos dias podemos analisar que a polícia decidiu não entrar em nosso lar, não arrebentá-lo e destroçá-lo como as outras casas, apenas como uma jogada estratégica... talvez nos guardem para algo maior.

Mas a decisão de não nos atacar abertamente, não se estendeu a nossxs companheirxs que se solidarizavam lá de fora. Sobre elxs atacaram com tudo. A besta policial queria ver sangue e utilizou todos os seus esforços, ainda assim nossxs irmãs/ãos não se amedrontaram, apesar da diferença numérica, se fizeram sentir em todo o bairro, levantando barricadas, virando carros nas ruas, desatando sua fúria.

O cerco policial é superado com a estratégia de se dividir, expandindo assim a revolta. Foram atacadas instituições do capital, enquanto o bairro recebe a odiosa presença das distintas polícias.

Para caçar nossxs comanheirxs não medem esforços, golpes, atropelos e disparos, nada faltou... contabilizando-se mais de uma dezena de detidxs, cujos rostos revelavam a dureza da operação. A todxs elxs, um abraço fraterno, um sincero agradecimento pela entrega, pelo apoio dado e a força enviada. Nos será impossível esquecer todos os olhos que se incendiaram ao clamor das fogueiras e barricadas, como tampouco se apagará em nossa memória o ruído dos gritos de apoio. Mauri estava conosco, correndo e rindo entre todxs esta noite, no fim da rua, levantando barricadas até o teto com o coração em chamas, nessa eterna noite que ainda permanece incandescente na memória.

Durante a madrugada policiais tentaram invadir por casas e edifícios vizinhos, e ao não conseguirem, o pessoal das SIP fotografou nosso lar, de diferentes ângulos.

Os primeiros raios de sol nos permitiram observar o estado em que estava os arredores da casa. Vivemos uma manhã que não acreditávamos que chegaria... ao abrir nosso lar pudemos compartilhar com xs irmãs/ãos que ainda nos faziam companhia, enquanto lá fora ainda ardiam as chamas.

A despedida do corpo do companheiro Mauri... só de seu corpo

A despedida do companheiro anarquista (ou "aspirante a anarquista", como brincando gostava de definir-se) foi numerosa e emotivamente combativa. Centenas de encapuzadxs vestidxs de negro tomavam as ruas. A polícia à distância nos vigiava sem dar trégua, de morros distantes nos filmavam e apontavam com armamento de guerra.

Saímos em marcha da casa de Mauri até o cemitério. Os ônibus contratados sucumbiram perante o medo. A mãe e o irmão de Mauri se comportaram inegavelmente à altura das circunstâncias, caminharam conosco, o cansaço e a dor não se contavam nesse momento.

Apesar do operativo empregado com a finalidade de amedrontar, nós e nossxs companheirxs enfrentamos decididos esse momento. Queremos nos despedir com honra do corpo de um guerreiro, mas considerando que o que se foi é só um corpo, só carne inerte, sua energia, sua força criadora e destrutiva, hoje se mescla conosco de mil maneiras.

Durante a despedida, teve gente que tomou a palavra, algumxs/uns leram poemas e despedidas íntimas e teve outrxs, que com o eterno desejo de aparecer e tirar proveito de um momento tão duro, levantaram sua voz apenas para cortar o silêncio com incoerências, com supostos pensamentos de Mauri, que são apenas distorções de suas idéias, que nada têm haver com o que o companheiro pensava e fazia e pelo que acabou por morrer.

Isso se estende a saudações e comunicados que se difundem pela internet, onde se faz mais alusão a proselitismo político do que as idéias que nosso companheiro empunhou.

Aqui temos que ser claros, não deixar espaço à dúvida, Mauri era um antisocial, é possível estar de acordo ou não, criticá-lo ou apoiá-lo, mas sempre tendo como perspectiva as idéias dele e não o que acreditamos que pensava ou que foi dito que pensava, só assim se respeita um companheiro e tem ali completo sentido sua morte.

O companheiro entendia esta sociedade e qualquer outra que se pretendesse construir como a materialização do poder, como a negação da afinidade e da livre associação, como a anulação da autonomia individual. Pretendia a destruição da civilização e a volta à vida selvagem. Definia-se vegano e regia sua vida pelos princípios da libertação animal, sempre desde um caráter revolucionário e não compassivo. Odiava de morte as posições plataformistas e amarelas, os bombeiros da revolta e aquelxs que acreditavam em um etapismo na luta contra o capital.

A luta não se centrava em uma falsa afinidade com x outrx exploradx, seriam seus sentidos, ações e cumplicidades que gerariam a irmandade e a afinidade.

Que a dor não apague a raiva, que queime todo germe de autoridade

Esse era, esse é nosso companheiro, nosso irmão e não aceitaremos mais lama sobre suas idéias, seus gestos e vida. Com ele compartilhamos ódios, raivas, encontros e desencontros, é nosso irmão, não um slogan, não um rosto frio atrás da linha policial, é vida mesmo agora, não aceitamos sua morte, nos rebelamos com isso mesmos às custas da estabilidade emocional. Mauri está aqui, dando-nos força nesta dura batalha, que tantas vezes acreditávamos distante.

Passam os dias e a tensão permanente não nos deu um momento de intimidade para chorar por ele como se merece, temos sobre nós o peso constante de sermos invadidxs, detidxs, torturadxs, esmagadxs por sentenças que só buscam secar-nos na prisão ou na solidão da deserção da guerra.

A dor nos parte o coração como uma pontada congelante mas aquilo não pode nos imobilizar, é isso que querem, com isso terão ganhado, nos terão vencido. A morte golpeia e abraça nossa realidade, por vezes desarma nossos projetos e desestabiliza nossos passos mas ao mesmo tempo e de uma maneira esquizofrênica, nos dá força, nos obriga a levantar a cabeça para não trairmos nosso irmão, para não trairmos a nós mesmxs. A lealdade a nós mesmxs e a ele, mesmo às custas de nossa harmonia espiritual.

A loucura nos cumprimenta do precipício, a prisão nos espera ansiosa, a morte levou um felino de nossa manada e a comodidade desde um tempo caminha de mãos dadas com muitxs que acreditávamos estarem conosco. Todos esses caminhos inflamam nosso desprezo enquanto iluminam o caminho insurrecional que escolhemos, sim, leia bem, assim nos definimos.

Mauri nos falou faz alguns dias sobre despertar o guerreiro que vivia nele, isso acreditamos, é o que devemos fazer todxs, apegadxs cada um/a a suas próprias convicções e ações, mas fazê-lo, não deixar-se submeter, nem pelo choro, nem a dor, nem a raiva, nem os inimigos de mil cores possíveis.

Nos solidarizamos com xs detidxs que já se registram e com os que logo mais engrossarão as listas de prisioneirxs, de reféns do estado e do capital.

Enviamos um cumprimento fraterno e cúmplice a nosso irmão sequestrado nas masmorras do poder, que faz anos jurou estar conosco, lado a lado enfrentando um momento como esse: esteve, não te esquecemos. Axel Osorio você também está aqui, ao que parece logo algumas/uns poderemos finalmente te abraçar...

Companheirxs: fiquem atentos e não abaixem a guarda. A guerra social esta desatada e exige nosso melhor desempenho.

"E as minhas ações ao dormir destinam-se para que amanhã ao acordar, romperei com a rotina pela ação individual com o peito como pedra, estufado pela destruição desta e de qualquer sociedade.... Faça-me um favor: garanta que viva a anarquia".
Mauricio Morales



quarta-feira, 13 de maio de 2009

The Cotton Myth - PETROGRAD

The Cotton Myth (O Mito Do Algodão)


BAIXE AQUI


(Do split LP com Active Minds "Sentenced for caring")

Sequestrad@s de suas casas
Sequestrad@s de suas terras
Vendid@s aos homens brancos ricos
Forçad@s a trabalhar numa terra roubada

A história dos campos de algodão
É uma história de escravidão

"Eu tenho um sonho que um dia, lá no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação..."

Tratad@s como menos do que mercadorias
Uma vida nas correntes em um país estrangeiro
E atualmente tant@s parecem ter
esquecido sua própria história
Se foi Lincoln que aboliu a escravidão
As pessoas negras jamais serão livres
Se foi Lincoln que aboliu a escravidão
As pessoas negras jamais serão livres

















"Após o fim do tráfico negreiro, com problemas de reposição de mão-de-obra, os grandes proprietários tiveram dificuldades em atrair trabalhadores rurais, devido, entre outros fatores, às condições exploratórias que impunham. Nos finais dos anos 50, ouve-se o clamor dos fazendeiros que exigem das autoridades medidas tendentes a obrigar os homens pobres livres a trabalhar em suas terras. Em 1860, a pedido, a Arcebispo da Bahia, Marquês de Santa Cruz, emite uma pastoral onde afirma que a ociosidade era um dos maiores pecados e concita, dessa forma, os pobres a procurar trabalho. Na década de 70, acentuando-se o problema, os delegados de Polícia são alertados para efetivar a aplicação do § 2o., do artigo 12, do Código de Processo Criminal e do artigo 111, do Regulamento de 31 de janeiro de 1842. O Chefe de Polícia da Província de Sergipe seria bem claro ao afirmar que 'devido à falta de braços para a lavoura, não se podia permitir a vadiagem'. Estes parágrafos e artigos constituíam-se em verdadeiras leis contra a pobreza, mendicância e ociosidade. Os que fossem encontrados sem trabalho teriam o prazo de 30 dias para encontrar ocupação, findo o qual poderiam receber três tipos de penas: multa de até 30 réis, prisão de até 30 dias e 3 meses de casa de correção ou oficinas públicas."
(Trecho retirado do Livro "Nordeste Insurgente: 1850-1890", de
Hamilton de Mattos Monteiro, Ed. Brasiliense, páginas 19 e 20.)


ANGOLA: A última plantação escravista


Cercada em três direções pelo rio Mississipi, mas ainda no estado Louisiana, está a última plantação escravista dos EUA. Também chamada de "A Fazenda", Angola é a Penitenciária Estadual de Louisiana, um imponente presídio isolado nas colinas - a cidade mais próxima fica a 30 Km - um dos maiores dos EUA, com cerca de 73 km2 de extensão, aproximadamente do tamanho de Manhattam. O Presídio Angola é o exemplo perfeito de como o sistema prisional funciona como um conjunto de instituições que são, em todos os níveis, contínuas ao sistema escravista.

Compradas pelo major Isaac Franklin com o dinheiro de sua empresa de tráfico de escravos, Franklin & Armfield (uma empresa riquíssima, sobretudo com o lucro sobre o tráfico interno, após a proibição do tráfico internacional), as plantações Panola, Belle View, Killarney e Angola foram unidas e alugadas por outro major confederado chamado Samuel James, que dirigiu as plantações até 1901, quando o estado as adquiriu e fundou o Presídio Angola. É chamado assim porque a maioria dos escravos eram angolanos que foram transferidos dos Velhos Quartéis de Escravos e transformados em prisioneiros, submetidos a duras e brutais jornadas de trabalhos forçados nas plantações milho, cana e algodão, o que permanece com característica do Presídio angola até hoje.

Essa prisão de segurança máxima ainda funciona como uma fazenda de trabalho escravo institucionalizada, onde muitos de seus 1.800 funcionários descendem dos antigos capatazes, assim como a maioria de sua população cativa, cerca de 80% de seus 5.000 prisioneiros / escravos, são descendentes de african@s. O trabalho dos presos nas plantações de cana de Angola chegava a ser tão duro e desumano que, em 1952, 31 presos brancos cortaram os próprios tendões de Aquiles como protesto, ficando aleijados e impossibilitados de trabalhar. Fugir de angola é muito difícil. É correr a esmo pelas platações e ser caçado por homens à cavalo e cães farejadores. Lá, as sentenças são absurdas, sugando toda a vida dos presos, sendo raro alguém sair vivo. É estimado que 95% deles vão morrer atrás das grandes. Tudo isso considerado como seguro, estável e constitucional.

Os funcionários não são chamados de guardas ou de oficiais. São chamados de homens livres. Mantêm um sistema nepotista de ocupação de cargos e vivem logo ao lado com suas famílias, no que chamam de "B-line" (Linha-B): um condomínio com em casas bem pintadas e cuidadas, piscina, centro de lazer, pista de skate, etc. Tudo de graça, com o trabalho dos presos, que trabalham com seus macacões brancos realizando as mais variadas funções: cortam a grama, cuidam dos jardins e os de melhor comportamento, chamados por eles de "House Boys" (garotos de casa), limpam e cozinham em suas casas.


Os 3 de Angola: Panteras Negras na solitária

Em diferentes momentos e por diferentes motivos, no final dos anos 60, Robert Hillary King, Albert Woodfox e Herman Wallace chegaram em Angola. Woodfox havia sido condenado por assalto à mão-armada e Wallace por assalto à banco, sendo ambos sentenciados à 50 anos de prisão.
Lutando por melhores condições de vida na prisão, em 1971 fundaram a primeira e única seção dos Panteras Negras em uma penitenciária. Combateram os casos de brutalidade e os sistemáticos estupros que ocorriam. Buscavam auxiliar os presos mais jovens, aconselhando-os a não contraírem dívidas. Geravam consciência política e revolucionária. Organizaram greves de fome e de trabalho.

Mas na manhã de 17 de abril de 1972, Brent Miller, um jovem oficial de 23 anos que estava para se casar, foi esfaqueado 38 vezes e morto. Como resposta, a truculência policial. Após uma série de violências contra os presos, os Panteras Negras (Woodfox and Wallace) foram acusados juntamente com dois outros homens, e Robert foi considerado como envolvido no planejamento da morte. Hezekiah Brown - um preso aliado dos guardas, condenado à prisão perpétua por estupro - que primeiro afirmou não saber de nada do caso, depois de um tempo disse ter visto, enquanto preparava café para Brent, eles entrarem o esfaquearem no dormitório. Negou ter recebido favores pelo seu testemunho, mas em 1975, Murray Henderson - que conduziu a investigação na época - escreveu à um juiz de Nova Orleans recomendando o perdão de Brown. Em 1986 ele foi perdoado, morrendo em liberdade dez anos depois. Outras testemunhas duvidosas apareceram posteriormente, uma delas, Howard Baker, inventou uma história inconsistente que nunca foi questionada: disse ter visto Wallace fugir do local e queimar suas roupas em um incinerador, sendo que não havia um no local. Posteriormente admitiu ter testemunhado por ter recebido uma proposta de alguns guardas que disseram que o ajudariam a sair de Angola. Outra testemunha, Colonel Nyati Bolt, disse que estava com Woodfox na hora em que Brent foi morto. Logo que informou isso aos guardas, foi levado para a solitária.

Woodfox e Wallace foram condenados em um julgamento rápido, de duas horas. Seus advogados eram ineficientes, o tribunal era racista. No ano seguinte, Robert foi condenado por outro assassinato. Foi a descida para o inferno. Eles foram mantidos na solitária 23 horas por dia por vários anos, até que em 1997, Malik Rahim, um Pantera Negra, e Scott Fleming, um estudante de direito, descobriram que eles ainda permaneciam em isolamento e iniciaram as mobilizações. Ficaram conhecidos com "The Angola 3" (os 3 de Angola).
Após 29 anos Robert Hillary King foi considerado inocente, teve sua sentença anulada e foi libertado. Escreveu um livro autobiográfico chamado "From the Bottom of the Heap". Herman Wallace e Albert Woodfox continuam presos em Angola, tendo sido transferidos para um dormitório de segurança máxima em março de 2008, após 36 anos confinados, o maior tempo que algum preso já passou em isolamento nos EUA.

Em julho de 2008, um juiz federal derrubou a condenação de Albert Woodfox, mas não encontrei informações mais recentes sobre sua situação jurídica.

A LUTA CONTINUA
até que tod@s que estão pres@s
ESTAREM LIVRES!!!

Você pode encontrar mais informações aqui. Há um documentário sobre os 3, chamado "The Angola 3: Black Panthers and the Last Slave Plantation", narrado pelo "the voice of the voiceless" (a voz dos sem-vozes), Mumia Abu-Jamal.
Assista abaixo o trailer desse documentário:




A MORTE DO ESPÍRITO

Muito já foi dito e escrito sobre a "vida" dentro da prisão. Alguns se ocupam dos incidentes violentos mais espetaculares que ocorrem, certos de que dessa forma prenderão a atenção do leitor. Outros preferem minimizar a violência temendo que o leitor rejeite aquelas visões sombrias, tão distantes de sua realidade, e julgue que elas são simplesmente inacreditáveis. Como sempre, a verdade oscila em algum lugar entre os dois extremos.

Que as prisões são caldeirões de violência é inegável, mas as expressões abertas de violência são raras no dia-a-dia. O aspecto mais horroroso das prisões reside na banalidade das ocorrências cotidianas, que transformam dias em meses, meses em anos e anos em décadas. Segundo por segundo, a prisão é um ataque à alma, uma degradação diária da personalidade, um opressivo guarda-chuva de aço e tijolo, que transforma segundos em horas e horas em dias. Quando uma pessoa é trancada nesse submundo, parece que o tempo pára. Mas é claro que não é assim. As crianças que deixamos do lado de fora crescem, transformam-se em adultos, muitas vezes têm seus próprios filhos. Antigas relações amorosas murcham até serem não mais que poeira do passado. Parentes morrem, sua perda é lamentada em silenciosa solidão. Tempos, temperamentos, costumes sociais mudam, mas os enjaulados se movem num outro ritmo, ultrapassado.

Fechado dentro de um casulo mental de negatividade, o ruim fica ainda pior e se realimenta de dejetos de maldade. Os que estão feridos ficam mais profundamente feridos e aqueles que estão apenas um pouco "tortos" acabam degringolando de vez. O vazio de horas improdutivas se transmuta em anos de nada. Essa é a face crua do "sistema correcional" de nossa época, em que ninguém é corrigido, de onde ninguém sai melhor do que entrou. Essa é a face da "correção", que proíbe o ensino para aqueles entre os quais o índice estimado de analfabetismo é de 60%.

A selvagem monotonia que mata a alma, entorpece a mente, que torna cada dia um eco do dia anterior, sem chance nem esperança de evolução, faz da prisão a morada da morte espiritual para mais de um milhão de homens e mulheres que permanecem nesses buracos nos Estados Unidos. Qual interesse social é atendido mantendo-se esses prisioneiros analfabetos? Que benefício social advém dessa ignorância? Como se pode pretender corrigir pessoas aprisionadas se a eles é proibido o acesso ao ensino? Quem (além do próprio sistema penitenciário) lucra e se beneficia com a existência de prisioneiros ignorantes?

Mumia Abu-Jamal, novembro de 1994.


CAMPOS DE DEJETOS HUMANOS

Uma moda sinistra toma o campo dos "negócios" conhecido por "sistema correcional" nos Estados Unidos e cheira muito mal tanto para os presos quanto para as comunidades de onde eles são provenientes.
A América está revelando uma face dura e cruel. E não há lugar em que tal face seja mais diabólica do que no tenebroso submundo do cárcere, onde seres humanos são transformados em não-pessoas, são trancados em cubículos de não-vida, onde até mesmo a alma está submetida à liquidação.
Estamos em meio a um processo de "marionização" (1) das prisões americanas, onde qualquer esperança de reabilitação humana tem de ser descartada, entrando no lugar uma desumanização intencional. Como a superlotação das prisões aumenta, ameaçando explodir, os estados da federação se esforçam para angariar fundos para construir novas unidades de controle disciplinar, conhecidas por uma grande variedade de nomes: RHU, SMU, SHU, Supermax. Os porta-vozes dos governos defendem essas instituições argumentado que se trata de unidades rurais, localizadas em áreas isoladas para confinar "o pior do pior".
Esta justificativa serviu de pretexto para a infame transformação da Penitenciária Federal de Marion em unidade de controle, onde o governo empilhou prontamente um bom número de presos políticos, estando entre eles, por pelo menos um período, o ex-membro dos Panteras Negras Sundiata Acoli, o antigo ativista do Movimento Índio Americano Leonard Peltier (2), o doutor Alan Berkman (3) e o militanteantiimperialista norte-americano Tim Blunk (4), entre outros. Em 1987, a Anistia Internacional informou que em Marion se violavam quase todos os princípios estabelecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas) para o tratamento de prisioneiros. Diversas redes de TV informaram recentemente que na Prisão de Segurança Máxima de Pelican Bay, na Califórnia, existe uma câmara de tortura denominada Skeleton Bay (6) pelos prisioneiros. Na Pensilvânia, numa região isolada e economicamente estrangulada, foi construída uma unidade especial de gerenciamento (SMU, da sigla em inglês), um dos lugares onde o Estado se especializou em torturar almas. Parece que essa unidade também se especializou em castigar os advogados de prisão e serve como punição para aqueles que se atrevam a ganhar causas civis.
Vamos considerar apenas um caso: Dennis "Solo" McKeithan conta sua história antes de ser mandado à SMU. "De junho de 1985 até 1o. de novembro de 1989 nunca fui lavado à solitária e nunca tive incidente disciplinar mais sério, a não ser ter fumado dois cigarros de maconha. Passei três anos sem nenhum tipo de conduta imprópria estudando e [sendo] instrutor de alfabetização e tudo." Em março de 1992 tudo mudou, quando "Solo" foi acusado de agredir um enfermeiro na prisão de Huntingdon. Pouco tempo depois, o autor pode vê-lo trancado numa cela do bloco B com o olho esquerdo inchado como uma bola de golfe.
Em 13 de novembro de 1992, aconteceu um fato espantoso e sem precedentes. "Solo" foi julgado e absolvido (sim!) por um júri de brancos do Condado Rural de Huntingdon, que não acreditou na história do enfermeiro, que também era branco.
Em 17 de novembro e 1992, apesar de absolvido, "Solo" foi transferido para o SMU e posto em isolamento.
Agora, tendo perdido nove quilos desde que chegou, ele continua lutando por sua liberdade e dignidade contra um sistema concebido para negar as duas.

Mumia Abu-Jamal, setembro de 1993.


NOTAS:

1 - "Marionização" é um termo cunhado no relatório de 1991 da Human Rights Watch sobre as prisões dos EUA. Em 1983, a Penitenciária Federal de Marion se converteu em uma unidade de confinamento disciplinar permanente. Constituiu o modelo de prisão de segurança máxima que depois se aplicaria em 38 outros estados. As prisões "marionizadas" mais recentes são a de Pelican Bay, na Califórnia, de Florence, no Colorado, e do Condado de Greene, na Pensilvânia. [Nota minha: em posts futuros serão esmiuçados outros aspectos do confinamento em segurança máxima segundo diferentes modelos que foram criados e aprimorados pelo sistema prisional, abordando o tema sob a perspectiva de outr@s pres@s políticos da atualidade].

2 - Leonard Peltier e Mumia Abu-Jamal são os dois mais conhecidos prisioneiros políticos dos Estados Unidos. Peltier é acusado de ter assassinado dois agentes do FBI em 1975. (N.E.)

3 - O doutor Alan Berkman foi acusado de dar assistência médica a um suposto "terrorista" da Revolutionary Army Task Force (RATF). Foi o primeiro acusado de tal crime desde o doutor Mudd, que tratou de John Wilkes Booth, o assassino de Lincoln. Berkman pegou doze anos por "envolvimento com terrorismo". (N.E.)

4 - Junto com Susan Rosemberg, Tim Blunk foi detido por posse ilegal de dinamite. Detalhe: a dinamite não estava preparada para ser uma bomba. Os dois acabaram condenados, em 1984, a cinquenta anos de prisão. No mesmo período, um militante de extrema-direita foi condenado por explodir clínicas de aborto e foi condenado a sete anos de prisão, sendo solto depois de quatro anos. (N.E.)

5 - Skeleton Bay (Baía dos Esqueletos): o nome vem de uma faixa ao norte da Namíbia, onde vão parar restos de naufrágios. (N.T.)


Ambos os trechos foram retirados do livro de Mumia Abu-Jamal "Ao vivo do corredor da morte", da Editora Conrad (2001), sendo o trecho "A Morte do Espírito" das páginas 74 e 75 e o "Campos de Dejetos Humanos" das páginas 91 à 93.

VEJA O MUNDO COMO ELE É... SINTA A VIDA COMO GOSTARIA QUE ELA FOSSE!
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